Notícia

Mulher e Direitos Humanos

Secretaria da Mulher e dos Direitos Humanos do Estado de Alagoas
Sexta, 29 Novembro 2019 18:03
ESPECIAL

Tabacaria: a essência africana no Agreste de Alagoas

Liderança de quilombolas tem trabalho reconhecido no Tia Marcelina

Secretária Maria Silva na entrega do Prêmio Tia Marcelina à Amaro Félix e Alaíde Bezerra, lideranças do Quilombo Tabacaria Secretária Maria Silva na entrega do Prêmio Tia Marcelina à Amaro Félix e Alaíde Bezerra, lideranças do Quilombo Tabacaria Tanino Silva
Texto de Letícia Sobreira

Em 500 anos de Brasil, acreditar que o sistema escravagista da era Colonial não deixou feridas abertas neste país está mais que comprovado: é tolice. Aqui, na terra de Dandara e Zumbi dos Palmares, segundo o Instituto de Terras e Reforma Agrária de Alagoas, somamos 68 comunidades certificadas de remanescentes quilombolas. São cerca de 6.800 famílias de descendentes legítimos de um povo que foi arrancado do seu lar em nome da ganância de outras raças e carrega consequências até os dias atuais.

Em Palmeira dos Índios, segundo maior município do Agreste Alagoano, fica localizado o Povoado Tabacaria. “Tabacaria é como um pedacinho da África”, diz Amaro Félix, quilombola de olhar tranquilo e voz suave. Amaro, ao lado da esposa Alaíde Bezerra, é a maior liderança comunitária, presidente da Associação de Desenvolvimento da Comunidade Remanescente de Quilombos Tabacaria – ADRQT. Os dois foram agraciados neste mês da consciência negra com o Prêmio Tia Marcelina, de iniciativa do Governo de Alagoas por meio da Secretaria de Estado da Mulher e dos Direitos Humanos (Semudh) e do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Conepir). Um instrumento de reconhecimento e visibilidade de ações que tenham o intuito de promover os direitos humanos dos negros e negras em Alagoas.

O Quilombo Tabacaria é remanescente da luta travada por Aqualtune, Ganga Zumba, Dandara, Zumbi e tantos guerreiros. A exemplo da história deles, Tabacaria construiu sua própria trajetória de resistência, enfrentando ameaças de fazendeiros, a fome, a seca e todo tipo de condição de vida desumana. O Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID) do Quilombo de Tabacaria foi publicado em 2007, depois de alguns anos de ocupação da terra pelos quilombolas. Em 2009 o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou o decreto de desapropriação do território da comunidade.

A partir do início da conquista oficial da terra iniciou-se a luta por condições de existência dignas. “As pessoas aqui não sabiam o que era um vaso sanitário, porque dentro dos barracos que moravam não existiam banheiros, as necessidades fisiológicas tinham que ser feitas no meio do mato”, lembra Maria Silva, hoje secretária da Mulher e dos Direitos Humanos. Maria foi superintendente regional do Nordeste da Fundação Cultural Palmares, entre 2013 e 2015,  órgão do Governo Federal, atualmente vinculado ao Ministério do Turismo, responsável por promover a cultura de matriz africana no Brasil. Foi nesse período que a Fundação conseguiu viabilizar recursos para a construção de casas de alvenaria no Povoado Tabacaria.

Em 2017, sob muita emoção e preces de agradecimento, foram entregues 50 casas para as famílias do povoado, agora já com titulação de terra quilombola. Tabacaria precisou de toda força de seus habitantes e ancestrais para reconstruir as condições de uma existência justa naquela terra. Nos últimos anos, o Quilombo conquistou casas de alvenaria, energia elétrica, cisternas e o orgulho de não abaixar a cabeça diante das adversidades.

Amaro e Alaíde têm suas próprias vidas vinculadas à luta de Tabacaria, completaram-se 15 anos do casal vivendo essa batalha diária pela existência e visibilidade de sua gente. Sobre o Tia Marcelina, Amaro comenta: “são coisas que a gente fica grato quando acontece. Um movimento desse em prol de uma comunidade que está crescendo e sabendo que a secretária Maria é uma das pessoas que muito frequentou o Quilombo Tabacaria e ainda vem nos homenagear... Faz a gente feliz”.

Cozinha Mandala

Alaíde conta satisfeita que hoje seu lugar tem o que oferecer aos visitantes. “Além das construções, tivemos também plantação de quatro hortas, a Cozinha Mandala [restaurante criado para as mulheres da associação como fonte de renda] coisas que estão lá esperando a visita do povo. Coisas que nunca esperava acontecer em minha vida. A minha felicidade hoje é imensa”, diz.