Notícia

Mulher e Direitos Humanos

Secretaria da Mulher e dos Direitos Humanos do Estado de Alagoas
Domingo, 08 Setembro 2019 20:28
Juventude

Durante fim de semana, poeta do rap nacional discute racismo e juventude em Alagoas

Em eventos na Jatiúca e no Bom Parto, Secretaria de Estado da Mulher e dos Direitos Humanos promoveu debates com o rapper GOG

Durante fim de semana, poeta do rap nacional discute racismo e juventude em Alagoas Tanino Silva
Texto de Letícia Sobreira

“A periferia tem que sair e dominar o mundo”, disse Ramon Esteveras enquanto observava o espaço pomposo. Jovem periférico, é chefe de função do Hotel Jatiúca, que na última sexta-feira (06) recebeu o rapper GOG e diversas juventudes para discutir racismo e o cotidiano vivido nas quebradas alagoanas. “Eu não imaginava chegar onde estou hoje. Aprendi a sonhar depois que me encantei com a literatura, a música, a arte. O GOG também é uma referência disso. Hoje sei que a gente pode chegar em qualquer lugar”, disse.

O evento no hotel fez parte da segunda etapa do projeto “Juventudes Negras: Vidas Importam”, idealizado pela Secretaria de Estado da Mulher e dos Direitos Humanos. Durante a primeira fase, a equipe técnica da secretaria visitou escolas e comunidades da periferia de Maceió para realizar escutas com os jovens. Nos últimos dois dias, a discussão foi levada ao bairro de Jatiúca e do Bom Parto, na região lagunar da capital alagoana. Essa discussão sobre negritude nasceu para pautar no Estado o histórico genocídio da juventude negra. GOG, a presença especial para este segundo momento, conhecido como “o poeta do rap nacional”, através da música tem uma vida dedicada ao empoderamento de pessoas, em especial da comunidade negra. 

“Eu não sou um rapper, sou um pescador de pessoas”, disse GOG enquanto caminhava no meio do público atento e participativo, no hotel. O tempo de intervenções foi pouco para o tamanho da necessidade de falas. “O importante é levar a discussão para todos lugares, não importa o espaço. A gente precisa despertar e é através da cultura, não pelos livros que ensinam a gente a repetir coisas que não são reais. A educação tem que vir acompanhada pela cultura”, falou o poeta, que ressaltou a importância da formação de cidadãos críticos para a efetivação de uma mudança social. A fala de GOG fez coro com as intervenções artísticas de Fernando Rozendo, o MC Tribo, e seus alunos, as MCs Tay (Ingrid Taynar), Belle (Shiberlen Norberto), Izabelle Vitória, Naahliel Cristine e Cafeína (Matheus Antônio).

Arísia Barros, blogueira e ativista negra em Alagoas, aproveitou o espaço para mandar um recado aos presentes no evento: “a gente só fica indignado quando é alguém próximo, mas quando se mata um jovem negro, mesmo que muito longe, é você quem está morrendo. Vidas negras importam, mas importam primeiramente para o povo preto, então o povo preto tem que se levantar”, disse. Monyque Alves, negra, universitária, vinda da periferia da grande São Paulo, destacou a importância de ocupar todos os espaços. “Acredito que devemos estar em todos os ambientes, não só como funcionários. Precisamos ocupar a cidade e acho de extrema importância trazer esses adolescentes até aqui para que se vejam e ouçam que precisamos agir e lutar pelos nossos”, disse em referência ao público.

No Bom Parto, o encontro aconteceu ontem (07), no Quintal Cultural, espaço que é mantido por grupos culturais que acreditam na arte como ferramenta fundamental para a transformação social. “Tá em casa”, foi como o GOG foi recebido por Alyne Sakura, comunicadora popular e militante da cena independente do movimento hip hop em Alagoas. 

Dessa vez, o público era formado majoritariamente por artistas e ativistas culturais, fazendo fluir um bate papo mais direcionado sobre formas de construção do movimento e o impacto dessa contra-cultura nos bairros de periferia. O encontro também foi agraciado com diversas intervenções, como as de Tatá Ribeiro, que relatou através de poesia o racismo e a solidão da mulher negra, MC Tribo e o grupo de rap Poder Paralelo, com letras de denúncia sobre a realidade vivida por quem ora distante dos centros urbanos.

“É preciso montar um modelo estratégico de organização e passar isso de uma quebrada para outra. Só assim gente a gente vai ter força de resistência. Não dá para colocar a política distante da nossa realidade. Nenhum império se mantém por muito tempo. Só não podemos agir com o mesmo ódio que eles”, lembrou GOG. 

Durante as intervenções do público, uma voz embargada tocou os ouvidos e corações presentes, a de Maria José. Zezé, é conhecida entre os público por ser mãe de um dos MC’s presentes no evento, mas pediu o microfone para falar pela dor de outro filho, que foi perdido para a violência no Benedito Bentes. “A dor da alma adoece o corpo. Faço tratamento psicológico por causa disso. Quando vocês souberem de uma mãe que perdeu um filho, deem apoio para esta mulher, porque ela vai precisar de ajuda” contou.

A secretária Maria Silva falou ao público sobre a necessidade de atravessar qualquer barreira social. “Não é porque somos negros e periféricos que devemos ficar restringidos aos guetos. A cidade também é nossa, vamos mostrar isso. Estivemos na periferia, mas não ficaremos restritos a ela. Vamos circular em todos os espaços”, disse Maria, com o peso da voz de uma mulher negra, periférica e de descendência indígena. O superintendente de Políticas para os Direitos Humanos e a Igualdade Racial, Mirabel Alves, lembrou que o projeto tem continuidade. “Realizamos as escutas entre julho e agosto deste ano e as propostas levantadas deverão ser debatida em seminário no mês de novembro, como preparação do Fórum Estadual da Juventude Negra” disse Mirabel.