Notícia

Mulher e Direitos Humanos

Secretaria da Mulher e dos Direitos Humanos do Estado de Alagoas
Segunda, 27 Maio 2019 15:42
ESPECIAL

Por amor aos filhos, mães buscam ajuda para superar violência doméstica

Mulheres contam como o acolhimento do Ceam ajudou a superar a culpa e transformar suas vidas e de seus filhos

Ceam conta com uma equipe multidisciplinar com especialidade em atendimento humanizado, além de garantir a segurança e o bem estar da vítima Ceam conta com uma equipe multidisciplinar com especialidade em atendimento humanizado, além de garantir a segurança e o bem estar da vítima Letícia Sobreira
Texto de Letícia Sobreira

“Tenho vergonha disso. Quando acontece algo assim, a gente sente vergonha dos amigos, da família, de todo mundo. E culpa, muita culpa”, diz Teresa*, com as mãos inquietas tentando conter a emoção. “Aqui eu entendi que não fui culpada de nada”, completa.

Aos 46 anos, Teresa está entre as mulheres que recebem acompanhamento psicológico no Centro Especializado de Atendimento à Mulher em Situação de Violência Jarede Viana (Ceam), da Secretaria de Estado da Mulher e dos Direitos Humanos (Semudh). Além dos atendimentos prolongados, são realizadas intervenções pontuais de psicoterapia, só no mês passado 36 mulheres receberam esse tipo de apoio. Perto de concluir a fase de acompanhamento no Ceam, ela diz que está se reconstruindo. “Nenhum dos gritos que eu recebi nenhum dos solavancos que recebi, eu tive culpa”.

A culpa não é da vítima

A psicóloga Sarah Farias, que faz parte da equipe multidisciplinar do Ceam, a qual inclui atendimento psicológico, social e jurídico, explica que o sentimento de culpa é o que há de mais comum entre as mulheres vítimas de violência doméstica. O assédio moral, a manipulação e a dependência afetiva tornam as mulheres suscetíveis a culpabilização da violência, quando, em verdade, são vítimas de seus agressores através de violações físicas e psicológicas.

“A agressão psicológica, muitas vezes, é o que causa mais dano às mulheres vítimas de violência, gerando traumas que podem se arrastar durante toda a vida” conta Sarah, que realiza atendimentos diários no Centro. A psicóloga é estagiária de pós-graduação e desenvolve estudos sobre psicoterapia infantil - acompanhamento psicológico para a melhoria da qualidade de vida de crianças.

Mãe de uma menina de oito anos e um menino de seis, Teresa conta que a relação conflituosa com o ex-marido foi extremamente prejudicial para as crianças. ”No dia do ‘acabou’, foi quando às 6h da manhã ele começou a esmurrar a parede por uma bobagem. Minha filha, na época com dois anos, estava com um cachorrinho feito de balão, o irmão estava no berço e eu na cozinha. Até ele chegar lá, passou por cima e estourou o cachorrinho. Gritou, gritou e saiu para o banheiro. Nisso minha filha veio correndo e disse ‘mamãe, mamãe, por que o papai não gosta de mim? Por que ele matou o meu cachorrinho?’”.

Teresa conta que foi a partir daí que ela percebeu o quanto a relação com o marido afetava diretamente as crianças. Com a frequência dos conflitos e o aumento da agressividade, a mulher escolheu a separação na tentativa de proteger os filhos de um ambiente violento e tentar resgatar a si mesma.

Mesmo tempos depois da separação, Teresa não reconhecia que viveu uma relação abusiva e sempre que precisava encontrar o ex-companheiro para compartilhar a guarda dos filhos, se sentia violada pela forma com a qual era tratada - menosprezada e sob truculência. Foi quando, com medo de que a situação se agravasse, procurou ajuda em uma delegacia para registrar um boletim de ocorrência contra o agressor.

“Estava preocupada pelo que poderia acontecer. Pelos meus filhos”, lembra Teresa. Foi na delegacia que a mulher foi orientada a procurar ajuda no Ceam Jarede Viana. “Eu cheguei aqui perdida, chorando muito e sem saber o que fazer. Fui recebida pelas meninas daqui e me senti completamente acolhida”, relembra. A equipe do Centro de Atendimento realizou a escuta e encaminhou Teresa para receber auxílio psicológico.

Na terapia, depois de entender a situação de submissão a que se colocava, descobriu que sofria de depressão e estava desenvolvendo síndrome do pânico. “Hoje eu entendo que é como se eu estivesse toda craquelada. Aqui eu encontrei agulha e linha para me costurar”.

A psicoterapia, realizada para tratar a saúde da mente, bem como o bem estar emocional do indivíduo, é feita de forma dialética, ou seja, o diálogo, à contraposição de ideias que levam a soluções e novos conflitos, entre paciente e o profissional psicoterapeuta.

Na psicoterapia infantil, o acompanhamento psicológico é feito por meio do ato de brincar, com uma linguagem acessível para a criança, em dinâmicas que estimulem os pequenos a expressar vivências e sentimentos, a fim de identificar a causa dos sintomas percebidos pelos seus responsáveis.

Ainda que com pouca idade, as crianças da funcionária pública registraram nas mais profundas lembranças o que acontecia entre os pais. “Eles começaram a reproduzir entre si o comportamento agressivo”, contou Sarah, que prestou assistência psicológica por um mês aos dois irmãos.

A psicóloga explica que é comum que crianças assimilem o comportamento violento dos seus cuidadores como natural, mesmo quando são muito pequenas. De acordo com estudos embrionários, o feto começa a registrar memórias ainda dentro da barriga da mãe, além de ter sensibilidade a sons e estímulos.

Em relação à convivência dos irmãos, Sarah diz que chegaram ao Ceam sem nenhuma prática afetiva entre os dois. A menina, mais velha, chegava a ter facilidade em reproduzir práticas agressivas dentro das dinâmicas apresentadas pela psicóloga. “Trabalhei com eles em dinâmicas de carinho, na expressão e cuidado com o outro”.

Teresa conta que as seções dos filhos no Ceam foram transformadoras. “Hoje eles não se separam mais antes do ‘cadê o beijo da irmã? Cadê o abraço do irmão?”. O atendimento de crianças por meio da assistência psicológica no Ceam começou a ser feito no ano passado. Atualmente, cinco crianças estão recebendo o auxílio.

Quando foi assistida pela equipe do Ceam, Teresa também foi indicada a solicitar medida protetiva com a Patrulha Maria da Penha, mas optou por continuar apenas com o auxílio psicológico.

Filho agressor se enquadra na Lei Maria da Penha

Não é fácil para uma mãe admitir e reconhecer que o próprio filho seja seu agressor. Mas esse padrão de comportamento existe, é comum, e se enquadra na Lei Maria da Penha, possibilitando à mãe agredida ou violentada denunciar e buscar ajuda.

A secretária de Estado da Mulher e dos Direitos Humanos, Maria Silva, acredita que a disseminação do conteúdo da Lei Maria da Penha por meio de palestras, rodas de conversas e seminários é o caminho para que mulheres se encorajem e denunciem seus agressores, sejam eles quem forem, e consigam quebrar um ciclo de violência que costuma começar dentro da própria casa. “Temos investido incansavelmente na divulgação dos direitos das mulheres tanto na capital como no interior. Somente a educação e o conhecimento podem ajudar a construção de uma cultura da paz”, disse.

Diferente de Teresa, Maria*, dona de casa e hoje com 60 anos, fez acompanhamento psicológico no Ceam e solicitou judicialmente uma medida protetiva, dessa vez contra o próprio filho. Mesmo tendo vivido uma boa relação com o ex-marido, ela conta que o casamento de 30 anos chegou ao fim depois que ela passou a temer dividir o teto com filho mais velho, hoje com 33 anos.

“Houve um desgaste da relação até que eu descobri que o meu filho estava fazendo uso de drogas. Foi um choque”, relata Maria. “Ele sempre foi superprotegido pelo pai. Eu não concordava e acho que acabou fazendo mal. Meu filho não conhecia o mundo lá fora”.

Depois de ver indo embora a tranquilidade da família após as mudanças comportamentais do filho mais velho, Maria terminou um casamento de 30 anos. “Mexe muito com o psicológico, eu vivia muito nervosa. Poderia até ter me matado, me sentia insegura”, lembra. Vivendo com medo do próprio filho, a dona de casa buscou auxílio através do disque 180, a Central de Atendimento à Mulher. Foi lá que ouviu falar pela primeira vez sobre o Ceam, vindo fazer a primeira visita.

No segundo contato com o Centro, Maria já havia solicitado à Defensoria Pública uma Medida Emergencial Protetiva, temendo pela sua segurança. Foi a partir daí que passou a integrar o grupo de mais de cem mulheres que são assistidas com rondas diárias pela Patrulha Maria da Penha (PMP) - equipe da Polícia Militar de Alagoas que é responsável pelo acompanhamento e cumprimento das medidas protetivas judiciais.

Medida de segurança pra mulher

A Medida Emergencial Protetiva é uma providência garantida por lei para assegurar a vida da mulher vítima de violência doméstica. De acordo com a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), autoridades policiais podem determinar a aplicação de medidas protetivas às mulheres vítimas de violência doméstica dentro das primeiras 24h. A Patrulha Maria da Penha é especializada no atendimento humanizado, foi criada pelo Governo do Estado, com a participação das Secretarias da Mulher e dos Direitos Humanos e da Segurança Pública (SSP), do Tribunal de Justiça, Ministério Público e Defensoria Pública em abril de 2018.

“Eu não tinha noção de que a Patrulha era realmente tão eficiente”, conta Maria em tom de agradecimento. A dona de casa recebeu assistência da PMP durante seis meses. Nesse período, seu filho chegou a ser apreendido por violar o distanciamento mínimo exigido pela medida protetiva. “Liguei e informei que ele estava indo para a minha casa. Não demorou 10 minutos para a guarnição chegar no meu condomínio”, lembra.

“Tomei essa decisão para resguardar a nós dois. Fiz, faço e faria de novo se fosse necessário. Foi por amor. Eu fiz tudo por amor para salvar o meu filho”, desabafa Maria. Depois de alguns dias detido, a dona de casa conta que, recebendo o auxílio psicológico do Ceam, conseguiu convencer o filho a procurar ajuda para tratar o vício. Hoje, “sinto que estou tendo meu filho de volta, do jeito que era antes. Não me arrependo”, diz. “Muitas mães também precisam conhecer e buscar a Lei Maria da Penha”, alerta Maria.

O Ceam

O atendimento às mulheres vítimas de violência é realizado no Centro de forma conjunta com uma equipe multidisciplinar, para evitar estender o sofrimento da vítima tendo que repetir sua história de dor diversas vezes para profissionais diferentes.

Durante a escuta, os servidores do Centro analisam que tipo de ajuda pode ser ofertado a cada mulher, a depender de sua situação. Assim, os encaminhamentos são sugeridos às mulheres, para que possam escolher aceitar cada apoio ofertado pelo serviço público, em um trabalho contínuo. Passado o momento de situação de violência, a mulher recebe alta ou é direcionada para outro órgão que possa oferecer o apoio necessário para o momento. Todo trabalho é ofertado de forma gratuita.

Além da assistência psicológica, também são oferecidas assistências jurídica e social, com profissionais das respectivas áreas. No mesmo espaço de funcionamento do Ceam, também está localizada a sede da Patrulha Maria da Penha, sob o comando da Major Márcia Danielli Assunção.

O Centro Especializado de Atendimento à Mulher em Situação de Violência Jarede Viana está localizado na Rua Dr. Augusto Cardoso, no bairro Jatiúca, em Maceió, com atendimento ao público das 8h às 17h, e pelo telefone (82) 3315-1740.

*Teresa e Maria são nomes fictícios para proteger a identidade das mulheres em questão