Notícia

Mulher e Direitos Humanos

Secretaria da Mulher e dos Direitos Humanos do Estado de Alagoas
Quinta, 13 Dezembro 2018 16:40
RECONHECIMENTO

Prêmio Tia Marcelina é marcado pela defesa dos direitos humanos e da igualdade racial

Travesti, quilombola, pai de santo, professora e ativista da cultura popular foram homenageados por lutarem pela igualdade racial em Alagoas

Premiados do Tia Marcelina em 2018 Premiados do Tia Marcelina em 2018 Ascom Semudh
Texto de Letícia Sobreira

Em cerimônia realizada no Cine Arte Pajuçara na noite de quarta-feira (12), Arísia Barros, Pai Alex, Ana Cristina Conceição Santos, Rosa Mossoró, Fabíola Silva, Lígia dos Santos Ferreira e Maria Joana Barbosa foram agraciados com o prêmio Tia Marcelina por seus trabalhos em prol promoção dos direitos da pessoa negra em Alagoas.

O Tia Marcelina é uma iniciativa do Governo do Estado, por meio da Secretaria da Mulher e dos Direitos Humanos (Semudh), criado em 2016 com o objetivo de prestar honrarias a personalidades do Estado que atuam na luta pela igualdade racial.

O presidente do Conselho de Promoção da Igualdade Racial de Alagoas (CONEPIR), professor Clébio Araújo, abriu a noite com mini palestra falando da invisibilidade do povo negro. “A história da nossa sociedade não nos contempla. A história da nossa sociedade invisibilizou Tia Marcelina, Zumbi dos Palmares, Seu Zumba, os cabanos e todos os negros e negras que fizeram com as suas mãos cada parede das igrejas e catedrais que os brancos usam há séculos”, disse Clébio.

Homenageados receberam reconhecimento pela trabalho em defesa da igualdade racial em Alagoas (Fotos: Letícia Sobreira)

“O nosso conhecimento não aparece nas escolas, nas universidades. Em pleno século XXI, ainda precisamos anunciar para Alagoas que o nosso Estado tem 70 comunidades quilombolas, porque muitos alagoanos não sabem disso. Temos em Maceió verdadeiros quilombos urbanos, que são colocados à margem da sociedade”, disse.

A secretária de Estado da Mulher e dos Direitos Humanos, Maria José da Silva, mulher negra e indígena, falou da importância de promover o reconhecimento de pessoas que atuam pela igualdade social e ressaltou as dificuldades presentes nessa trajetória. “Só nós, negros, sabemos da dimensão do que aconteceu no passado e do momento em que estamos vivendo. A intolerância religiosa, as perseguições, os terreiros sendo destruídos, os pais e mães de santo sendo agredidos. É um momento em que precisamos ter toda união, todo cuidado. Vivemos em um país laico e isso deve ser respeitado”, disse Maria José.

O superintendente de Políticas para os Direitos Humanos e a Igualdade Racial da Semudh, Mirabel Alves, saudou os homenageados pelos serviços prestados à sociedade alagoana. “Nossos homenageados são semeadores de justiça. São pessoas que fazem da sua vida uma constante luta para que as próximas gerações tenham uma sociedade mais justa e igualitária, por isso, a nossa gratidão e que esse prêmio também possa ser um momento de reflexão na nossa vida sobre o que são os direitos humanos”, concluiu Mirabel.

Cerimônia

A noite foi marcada pela emoção de todos os presentes. Entre os discursos dos homenageados, o público presenciou lágrimas. A primeira a receber o prêmio foi Fabíola Silva, mulher negra, travesti, fundadora da ONG Pró-Vida, e conselheira estadual de Combate à Discriminação e Promoção dos Direitos LGBT – CECD/LGBT, que afirmou continuar desempenhando um trabalho melhor pela causa humana no nosso Estado, tendo o reconhecimento como um incentivo às duras batalhas no dia a dia.

A segunda a receber as congratulações foi Rosa Mossoró, reconhecida ativista cultural em Alagoas, já agraciada em outros momentos pela Fundação Cultural Zumbi dos Palmares e pelo Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas. “Eu sou a cultura”, resumiu Rosa. Em seguida, subiu ao palco Ana Cristina Conceição Santos, ativista negra no campo acadêmico, professora do Campus Sertão da Universidade Federal de Alagoas. “Enfrentamento e afrontamento o tempo todo”, disse Ana Cristina, referindo-se à necessidade de conquistar espaços de respeito dentro das universidades também.

 Homenageados receberam reconhecimento pela trabalho em defesa da igualdade racial em Alagoas (Fotos: Letícia Sobreira)

Já a diretora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab) da Ufal, Lígia dos Santos Ferreira, disse que receber um Prêmio que tem o nome de Tia Marcelina era motivo de grande emoção. Vestida com uma roupa produzida por grife alagoana especializada em moda afro, ressaltou os cuidados da organização do evento por ter garantido a inclusão de surdos, a maioria ex-alunos de Lígia, por ter se preocupado em fazer uma noite com as características da cultura afro, desde a escolha do repertório musical ao cardápio do menu e decoração.

Arísia Barros, professora, escritora e coordenadora do Instituto Raízes de Áfricas de Alagoas, agradeceu pelo reconhecimento de seu ativismo e disse que gostaria de dividir seu prêmio com a mãe de Davi da Silva, jovem negro, periférico, desaparecido em 2014, além de Marielle Franco e Mestre Moa, negros que foram mortos na luta pelo desenvolvimento social. “Você percebe que existe quando o que escreve começa a circular”, mencionou Arísia, referindo-se aos seus trabalhos reconhecidos sobre a população negra que estão nas salas de aulas das universidades públicas. Barros atua pela garantia dos estudos de Áfricas e dos afrodescendentes nos currículos escolares das escolas alagoanas.

Outra homenageada que foi tomada pela emoção diante do público foi Maria Joana Barbosa, líder quilombola da Comunidade Carrasco, em Arapiraca. Joana foi vítima de um ataque racista dentro de uma drogaria em sua cidade, sendo acusada de furtar produtos da farmácia, obrigada a mostrar os pertences da bolsa, numa situação de humilhação, constrangimento público, e preconceito racial por ser mulher, negra e pobre. Na cena, ainda foi achincalhada pelos funcionários da loja.

 Homenageados receberam reconhecimento pela trabalho em defesa da igualdade racial em Alagoas (Fotos: Letícia Sobreira)

Como se não bastasse, câmeras de monitoramento foram acionadas e comprovaram que nada havia sido roubado por ela. Joana não conseguiu ser defendida por nenhum advogado da cidade. E recorreu à Semudh para buscar a reparação dos danos morais sofridos.

Com a voz falha, contou sobre os desafios de ser uma mulher negra que luta por igualdade e como este é um caminho solitário. “Diante de tudo, eu sei que eu mereço, eu sei que sou uma mulher forte", declarou.

Pai Alex Gomes, como é conhecido, o babalorixá e mestre juremeiro, religião afro ameríndia típica do Nordeste, fez do seu discurso um agradecimento aos antepassados e aos filhos presentes no evento. Destacou que a Ong Casa de Caridade, a qual criou numa favela de Arapiraca, tem resgatado jovens das drogas ao oferecer atividades culturais e musicais, sendo esse trabalho um dos mais importantes da vida dele, por ter resultados efetivos com a juventude.

Prêmio Tia Marcelina

O prêmio foi criado em homenagem à Tia Marcelina, uma ex-escrava africana de Janga, Angola, descendente do Quilombo dos Palmares e de família real africana. Juntamente com Manoel Gelejú, Mestre Roque, Mestre Aurélio e outros, fundou os primeiros Xangôs do Brasil no bairro de Bebedouro, em Maceió.

Tia Marcelina morreu durante o “Quebra de Xangô”, episódio que perseguiu e torturou, em 1912, representantes das religiões de matrizes africanas.